José Ronaldo Mendes

A igreja

No alto da colina prostrava-se ela, concreta solidificação dos louvores a Deus. Casa de cura das almas, santuário do repouso eterno. Abençoada, intacta, perfeita, jubilosa.

No seu interior, a nave parecia ainda maior, devido à acústica de seus ecos infinitos re-reprodutivos de ejaculatórias, de confissões, de gemidos de arrependidos e de lassos paroquianos na sacristia. O altar de sacrifícios, onde a carcaça putrefata do cordeiro imolado quedava-se sereno, localizava-se bem à frente e ao centro do prédio, visível a todos, dominadora dos olhares. “O inferno está no olhar do outro”, alguém já disse. Em cima da mesa, o guardião de todos os dogmas, o escudo lexical e apostólico estava aberto. Apocalipse. O corpo e o sangue do inocente já fora derramado.

- Bem! Bom! Bem! Bom!

Toca o sino. Haverá missa. Tenho que ir assistí-la. Preciso expurgar o demônio.

À nossa frente o padre, trajando seu descomunal hábito negro e a epístola rubro-sangüínea. Totem-pagão-tabú.

O pároco profere a missa toda em Latim, língua morta, morta. Oro, rezo, rogo e suplico pela salvação das almas do purgatório, invenção política eclesiástica. Peço remissão pelos meus sete pecados capitais: masturbação, mentira, televisão, internet, adoração, indiferença e depressão.

Olho os vitrais. Gosto deles. Aprecio seus matizes coloridos, pueris, angelicais. Enxergo os mártires de minha religião, aqueles que morreram para dar-nos exemplo. Uma santa empalada, um santo a queimar vivo em fogueira, três anjinhos decapitados. Um, em especial, chama-me a atenção: uma ave de rapina, um abutre ao que parece, num vôo rasante, bica e estripa um grande relógio caído.

Vejo também um vitral que me apraz muito. Adão e Eva sendo expulsos do Paraíso. Ele, Sísifo demente, sempre incorrendo em erros até não poder mais. Ela, geradora de homens, Mãe das mães, pura pária lassa sacro santa.

Ao lado dos vitrais o mais santo de todos. O renegado pelo próprio Pai, o enviado ao Gólgota, à cova dos leões, à fogueira de Salém, às Grandes Guerras Mundiais, ao Vietnã, em direção às minas terrestres na África, aos atentados terroristas de setembro, aos de novembro, às guerras santas da Faixa de Gaza, aos guetos sombrios dos pobres países pobres, substratos de desenvolvimento, aos tiroteios entre traficantes de drogas e policiais corruptos do Brasil, à cruz. Essa cruz a qual carregamos até hoje, dilacerando-nos os ombros, pesando-nos as costas. Nossa coroa de espinhos perfura profundamente, indo até nossos pensamentos, convicções, ideais. É uma cruz feita de carne, ossos e músculos, herdada, não gerada.

Intensifico minhas súplicas. Joelhos dobrados, peço para que eu seja purificado, tendo meus pecados remidos, sendo liberto dos demônios que me assolam. A missa acaba. Naquela igreja, eu continuo lá, estático, imóvel. Do meu mais profundo ser, misericordiosamente, imploro para que os demônios sejam banidos. Mas não peço fervorosamente não. Eu sou Legião.

 

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Published on e-Stories.org on 19.09.2004.

 

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