Mauro Dellal

O fio

A noite era de verão. Mais precisamente o primeiro dia do ano. Porém, não havia calor naquele quarto e tampouco havia sol na vida dele; se houve, foi uma estrela anã num céu tão negro, que da luz de outrora só se lembrava de alguns débeis raios, daqueles que furam as nuvens em dias de chuva fina e fresca. O pouco que sobrou da noite anterior fora o gosto amargo da boca já enfastiada do álcool aliada à falta de fome... fome de gente. Ele estava só e só quis ficar. Estava acostumado à solidão que só os cercados sentem. Não havia ninguém... como sempre. Dele não se esperava mais nada. A não ser, talvez, um rasgo de sanidade final. Não sabia que deveria procurar o fio, mas algo lhe dizia tal coisa. Ele já havia pensado nisso. E não era pouco para quem queria tanta coisa, pois é claro que sim! Ele queria estar com ele e não só ele como os outros dele o queriam, mas dele não havia sequer um inteiro; só havia pedaços de um aqui e de outro ali. Olhou-se no espelho e se viram. Todos sós, sem o fio que os unisse, sem mãos para se ajudarem, sem braços que se abraçassem, sem olhos que se vissem. Continuava só e só queria ficar.

– Mentira! Gritou o que tinha boca. E quis chorar de raiva e não tinha o dos olhos. Este olhava tudo, petrificado, sem poder falar, pois estava só e só queria ficar. – É MENTIRA!! Daí, um tumulto sucedeu-se: o dos braços quis bater e não havia alvo, pois cego estava e sem olhar não podia mirar. O das pernas quis acudir com pressa, mas não havia braços de acalentar. O que tinha ouvidos escutava, horrorizado, e os queria com as mãos tampar. O que era osso procurava preencher-se e o que era cérebro ordenava e nada acontecia. Estavam todos sós e sós queriam ficar.

– MENTIRA! MENTIRA! MENTIRA... Mentira... gritou ele, pois não havia muito, os raios do sol o esquentavam por inteiro. Só isso. Não mais. Só precisava do fio que os unia. Mas não havia mais sombra de ninguém.

Apenas um permanecia quieto: o que era coração. Soluçava vez em quando; e cada vez era um espanto aos outros, que paravam de não fazer o que lhes era próprio. O quarto era só um que os envolvia de maneira sufocante, pois estava frio... Não conseguiam pensar juntos nem conseguiam achar o fio. Ele ficou quieto também. Pensou onde estaria, já que não podia mais ver, nem tocar, nem falar. Só podia lembrar, e era tudo mentira. Uma imensa e doce mentira. O das mãos tocou-lhe os ombros e ele não sentiu nada; nem um arrepio sequer. O fio, pensou ele, o fio... preciso dele. E começou a orar uma ladainha monocórdia.

Começou sozinho; porém os outros se aproximaram e cada um iniciou o que lhes era próprio de fazer; aos poucos foram formando um coral murmurante. Diziam:

Ai de mim, ai de mim!
Da noite ainda me falta a calma
Da calma ainda me falta o sono
Da alma ainda me falta o quê e o como

Ai de mim, ai de mim!
Do outro não me falta nada
Pois não há falta onde não há alma
Pois ainda me falta o quê e o como

Ai de mim, Ai de mim!
Da paixão ainda me falta a dor
Pois não se dói sem ter alma
Pois ainda me falta o quê e o como

Ai de mim, Ai de mim,
Pois não se vive assim
De um não estar o outro
Ai de mim!

Rezaram isso inúmeras vezes e adormeceram todos menos um: o que era ele. E soube o que fazer; já sabia e desde muito. Riscou o fio e os uniu.

Por Mauro Dellal

 

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Published on e-Stories.org on 15.08.2004.

 

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