Flavio Cruz

O corcunda de Harmonia e as onze grávidas

O Tonhão, coitado, era muito feio. Era corcunda, mas não era baixinho, não.  Desajeitado, cabelos emaranhados, barba comprida, e além de tudo, mancava. Quando ele chegou na cidade, chamou muito a atenção. Depois de algum tempo o povo se acostumou - sempre se acostuma com tudo – e ele fazia parte da paisagem. Não falava nada, resmungava algumas cosias só, não incomodava ninguém. O ”seu” Hilário tinha alugado para ele um cubículo no fundo do quintal. Bom inquilino, pagava sempre adiantado, em dinheiro. Às vezes o “seu” Hilário ficava tentando imaginar como ele conseguia. Pelo que sabia, ele ficava o dia inteiro pela cidade, não trabalhava. À noite ia para seu quarto e ficava em silêncio. No final das contas, o que importava, é que todo o mês ele cumpria com suas obrigações.
A vinda do Tonhão, há seis anos atrás, foi a única novidade que aconteceu na cidade. Depois mais nada. Foi por isso que seu Hilário ficou meio surpreso quando, há um mês atrás, ele lhe entregou um bilhete dizendo que iria ficar fora uns seis meses, mas ia deixar tudo pago pois queria seu quartinho quando voltasse. Ia ver uns parentes numa cidade longe dali. Na verdade, ele ficou mais surpreso ainda pelos seis meses adiantados do que pela partida. Enfim, o que importava era que ele tinha ali um bom inquilino.
Nos dias seguintes algumas pessoas perguntaram sobre o Tonhão para seu Hilário. Onde andava, tinha morrido, estava doente? Pacientemente o “seu” Hilário explicava a história e sempre repetia que ele era um bom sujeito. Mas o povo não teve muito tempo de explorar a novidade, pois alguns dias depois outra novidade aconteceu. Apareceu na cidade um rapaz novo, rico e bonitão. Que contraste, a cidade de Harmonia estava melhorando. O fulano se instalou no melhor, para ser honesto, o único, hotel da cidade. Fez reserva para dois meses, a notícia se espalhou. Parece que era um investidor, queria comprar umas terras, fazer um condomínio moderno. Devagarinho foi se intrometendo nos eventos sociais, fazia amizade com os rapazes, com os políticos e, com as mulheres, o maior sucesso.
Seu nome era Toni e num instante começou a “paquerar” diversas garotas. Algumas até romperam com seus antigos namorados e esses rapidamente se constituíram nos únicos e ferozes inimigos do recém-chegado. Toni, como ele fazia questão de afirmar, era com “i” e não com ípsilon. Só vestia roupas de bom gosto, estava sempre perfumado e tinha um carro alugado bem “da hora”. Depois de algumas semanas, começaram a aparecer as primeiras histórias. O Toni havia dormido não sei com quem, mais não sei quem, até mulher casada começou a aparecer na história. Quando a coisa começou a ficar muito quente, com marido desconfiado, namorada com ciúmes da outra namorada, o Toni se mandou. Acertou as contas no hotel e saiu de madrugada, quinze dias antes de completar os dois meses de sua reserva. Gastou bastante, mas não comprou nenhuma propriedade. Foi um escândalo na cidade. Alguns casamentos desfeitos, pais desesperados com a “desgraça” das filhas, um vexame.
O pároco, alguns líderes da comunidade e mais alguns políticos estavam furiosos com o que acontecera. Um fulano vem de fora e balança toda a pacata comunidade de Harmonia. Que safado, alguém tinha de fazer alguma coisa, ir atrás do fulano. Claro, ninguém falava na culpa das próprias “donzelas”, que imediatamente se entregaram ao “galã”, que nunca teve que fazer nenhum esforço. Aliás, desculpem-me, o único esforço que ele tinha de fazer era organizar a sua agitada agenda. Todas as mulheres da cidade queriam sair com ele.
Dois meses depois da partida, Toni ainda era o assunto da cidade. O assunto estava tão quente que ninguém sequer reparou quando o Tonhão saltou da carroceria de um caminhão, na rua principal e, mancando mais do que antes, foi se arrastando com sua corcunda até a os fundos da casa do “seu” Hilário, onde estava seu quartinho. Resmungou alguma coisa para o “seu” Hilário, que entendeu com isso que ele queria a chave, e se instalou novamente.
No dia seguinte, lá estava o corcunda outra vez perambulando pelo centro. É gozado como a figura grotesca do pobre Tonhão era uma espécie de consolo para a cidadezinha. É como se as coisas estivessem voltando ao normal. Aquela figura triste, patética, lembrava a todos o que era real, em contraste com um “bacaninha” safado que tinha vindo ali sabotar a paz e a boa vontade das pessoas. Interessante, as pessoas começaram a tratá-lo de uma forma mais amável, ele ficou até mais popular. Algumas pessoas até lhe dirigiam a palavra e, além disso, até ele ficou um pouco mais social e até “resmungava” algumas frases com sua voz gutural. Impressionante como duas pessoas que nada tinham a ver uma com a outra podiam se influenciar dessa forma. Bom para o Tonhão que o Toni tinha sumido do mapa.
Normalmente esse assunto - o Toni - deveria sumir depois de alguns meses. O problema é que ficaram “consequências”, se é que você me entende. Foi por isso que a história não morria. Para ser mais específico, havia onze “consequências” da passagem de Toni por Harmonia. Onze mulheres grávidas, três das quais eram casadas. Claro as casadas poderiam estar no estado por causa dos maridos, mas parece que ninguém estava sequer considerando a possibilidade. Falaram tanto no número onze, que até o Tonhão, de vez em quando, ouvia a contabilidade “gravitacional” – desculpem a impropriedade linguística. Apesar de o assunto ser trágico, vamos ser sinceros, que existe algo meio cômico sobre o assunto, isso existe. É a velha história:  o drama e a comédia muitas vezes se tocam. Talvez seja por isso que o Tonhão esboçava – só esboçava -um sorriso quando ele ouvia o fatídico número onze. Não tinha medo de ser pego dando um sorriso no meio de tanta humilhação e tristeza porque ninguém tinha coragem de olhar direto para sua cara: aquela barba nojenta, aquela cara esquisita. O que ele pensava – bom ou mal – não importava.
Algum estranho passava naquela noite perto do quarto do Tonhão, na rua dos fundos. Era alguém de fora da cidade, perdido, tentando achar um endereço. Era tarde, mas ele precisava da informação e, como viu luz acesa, resolveu se aproximar. Ao chegar perto ouviu alguém assobiar “My Way” do Frank Sinatra, lá dentro. Antes de chamar, resolveu espiar por uma fresta da janela, de onde saía um facho de luz. O que ele viu não o assustou porque ele não era dali e, na verdade, não havia teoricamente nada para se assustar. Mas por um motivo que não se sabe explicar, achou melhor se afastar. Lá dentro, estava um jovem, alto, se penteando em frente ao espelho. Em cima do criado-mudo havia uma barba postiça e, no chão, uns trapos.
Estava assim revelada a verdadeira identidade do Toni. Ele era o Tonhão, ereto, sem corcunda e sem barbas. Bonitão, bem arrumado, com um pijama fino e tudo mais, pronto para se deitar.
O segredo de Tonhão estava garantido. O estranho andarilho era de um lugar distante, não sabia das onze mulheres grávidas, não sabia do Toni, não sabia do Tonhão. Bendita ignorância e bendita a sorte do corcunda!

 

 

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Published on e-Stories.org on 03.09.2016.

 

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