Flavio Cruz

O celular


Lídia estava próxima dos 50, mas parecia uma adolescente quando se tratava de redes sociais, uso de celular e essas coisas de hoje em dia. Seus dedinhos eram mais velozes do que os de qualquer garota de 16. Estava totalmente integrada neste fascinante mundo tecnológico. Enredada nas redes sociais. Sua melhor amiga, Mara, mal conseguia acompanhá-la.
Não conseguia entender como as pessoas de sua geração tinham conseguido sobreviver sem tudo aquilo. E as novidades? Quase todos os dias alguém falava de um novo app, de uma artimanha tecnológica qualquer e ela assimilava tudo... O celular estava sempre com ela, a maior parte do tempo em suas mãos. Não saía sem ele, não ficava sem ele, não dormia sem ele. Era o marido que não tinha.
Tudo isso era para ela, parte do viver. A vida, porém, tem seus próprios caminhos. O sangue que corre nas veias não corre como as informações correm livres pelo ar. Um coágulo parou o cérebro de Lídia e este, por sua vez, parou de mandar instruções para seu coração continuar batendo. O hardware de Lídia tinha um defeito fatal e não houve como consertá-lo.
A Mara e mais algumas amigas cuidaram de tudo, uma vez que Lídia, além de não ter marido, não tinha parentes próximos, nem na proximidade.
Lá estava o corpo dela no caixão, frio, parado, mas bonito. Quase feliz. Arrumada com um capricho de mulher para mulher pela Mara. As pessoas conversavam e falavam as coisas que se falam nessas ocasiões. Que coisa, hein? Tão nova! Coitadinha, sem ninguém da família por perto! Ainda bem que havia a Mara. Tão ativa, tão esperta, como pôde acontecer?
Isso e outras variações disso. A Mara, porém, não falava com ninguém. Fazia um bom tempo que olhava para o rosto da amiga querida, como se tentasse falar com ela. A uma certa altura, parecia incomodada, algo parecia estar errado. De repente deu uma coisa nela. Saiu apressada da sala, pegou o carro e sumiu. Foi até a casa da Lídia, vasculhou sua bolsa, pegou um objeto e voltou correndo para o velório. Aproximou-se do corpo, descruzou as mãos da amiga, colocou o celular no seu peito e fez com que ela o segurasse.
Era isso que estava faltando. Era isso que a Lídia estava pedindo. Queria ser enterrada com seu “amigo”, parte de sua vida.
A Mara deu um suspiro de alívio, um sorriso manso. Acho que a Lídia agora estava sorrindo também, mas disso eu não tenho certeza...
 
 

 

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Published on e-Stories.org on 11.08.2016.

 

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