Flavio Cruz

Lágrimas de presidente


Para muitos que não vivem nos Estados Unidos, o presidente Obama é de direita, pelo simples fato de ser um presidente americano. Dentro desse país, no entanto, ele é considerado de esquerda. Um socialista, quase comunista. E todo mundo sabe que “socialismo” é um verdadeiro palavrão por aqui. Esse negócio de esquerda ou direita é daquelas coisas extremamente relativas, como quase tudo na vida.
Pois bem, esse presidente, que paradoxalmente está ao mesmo tempo nas duas pontas do longo palco político, chorou há algumas semanas atrás. E não pensem que foi na intimidade de sua sala na Casa Branca. Não, senhor, foi ali na frente de todo mundo, em rede nacional de televisão. Ele estava tentando defender algo que parece lógico num mundo lógico: fazer com que as pessoas que querem comprar armas tenham um atestado de antecedentes criminais. Já tentou isso antes e foi derrotado no Congresso. O pessoal que gosta das armas -  quase todo mundo - não quer que ninguém sequer chegue perto de qualquer controle. Mas voltemos ao choro. Foram lágrimas reais, até grossas, e rolaram copiosas pelo rosto do mandatário.
Gritaria geral do pessoal que defende armas para todos. Lágrimas de crocodilo, fingidas, uma encenação. Eu já vi choro fingido, posso garantir que aquelas lágrimas eram as mais sinceras que um homem pode verter. O motivo do choro? As crianças que morreram no massacre da Sandy Hook Elementary School. Bastante compreensível para um pai que tem duas filhas. Eu não sou autoridade em lágrimas presidenciais, mas apostaria um milhão – que nunca tive e  jamais terei – na autenticidade delas. Cheguei a pensar em pedir para minha querida nora, a Mirela, que é atriz, para dar uma olhada no tape. Tenho certeza de que ela concordaria comigo.
Esse povo não acredita que um presidente possa chorar por um verdadeiro motivo: vinte crianças que morreram de uma forma estúpida.
Sou suspeito por apoiar o Obama. Sempre achei que ele está sendo o melhor presidente das últimas décadas. Tudo que enfrentou, as causas pelas quais lutou, o respeito e dignidade que teve com seus adversários, só vai ser apreciado muito tarde.
As lágrimas do presidente, posso garantir mais uma vez, são as coisas mais legítimas que vi nos últimos tempos.

 

 

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Published on e-Stories.org on 24.01.2016.

 

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