Flavio Cruz

O zepelim azul

Era um lindo zepelim azul, tendo como fundo, o outro azul infinito do céu. No começo, ninguém percebeu. Era uma cor em cima da mesma cor, quase não dava para notar. Aos poucos, porém, aquela visão fantástica chegou tão perto, que a palavra se espalhou.  E vieram crianças, e vieram adultos, casados, solteiros, e por casar. Padre, prefeito, vereadores e tudo mais. Gente que nunca saía, saiu. Todos, boquiabertos, olhando para cima. E aquele dirigível enorme foi chegando e baixando cada vez mais. Já quase tocava a torre da igreja, da cidade o ponto mais alto. Suspiros, gritos de exclamação. Havia cestas de vime penduradas, como aquelas que se penduram nos balões de ar quente. E como aquele gigante voador era da mesma cor do firmamento, as cestinhas pareciam flutuar, sozinhas, mágicas, no espaço. Dentro delas, pessoas certamente nobres. Pareciam reis e príncipes  e assim se vestiam. Monárquicas vestimentas, vermelhas, verdes e azuis cobriam seus corpos. Lantejoulas. Gala total. Barbas reais e bigodes cobriam seus rostos. Véus sutis cobriam das madames os rostos, e penas, raras e caras, saíam de seus chapéus. E a real caravana, acenava, orgulhosa, benigna e condescendente, lá do alto. O prefeito fazia sinais mostrando o ideal lugar para se pousar. No chão, se apresentaria como o regente local, se ajoelharia e, do supremo monarca, as mãos beijaria. De repente, porém, o dirigível começou, novamente a se mover. Foi, devagar, se afastando, sem o chão tocar. Ainda, ao longe, as figuras reais, acenavam, fascinantes, com um distante sorriso no vazio do ar. Aquele ponto azul foi diminuindo, diminuindo. Finalmente sumiu no anil estúpido do horizonte.
As esperanças, doces e tênues, esmoreceram. No peito daquela gente sofrida, o vazio, que já era grande, aumentou. Naquele dia de sol infinito, o zepelim malvado tinha sido apenas uma vã esperança, um sonho desnecessário, quase um engodo. Toda aquela gente perdeu seu rei. O rei que nunca existiu...

 

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Published on e-Stories.org on 18.12.2015.

 

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