Flavio Cruz

As máquinas, os homens

Era o tempo das máquinas. Elas cuidavam dos homens e de suas coisas. Começaram devagar. Primeiro eram simples ajudantes. Depois começaram a imitá-los. Logo a seguir estavam substituindo muitos deles em muitas coisas. Até que um dia sabiam fazer melhor tudo que um homem fazia.  As máquinas, então, poderosas, começaram a fazer outras máquinas, mais perfeitas e mais precisas que elas mesmas. Tomaram conta de tudo.  Do corpo, do coração e da alma dos seres humanos. Em compensação, desapareceram a tristeza, a depressão, a infelicidade. Elas mantinham com precisão quase infinita a química do cérebro e o fluir do corpo dos homens. Cuidavam do passado, quando tinha de ser mudado, cuidavam do futuro quando tinha de ser planejado. As máquinas faziam os homens felizes. Apossaram-se de seus sonhos e os fizeram seus.

Mas um dia os homens perguntaram: Precisamos mesmo delas? Fomos nós quem as inventamos, não fomos? Podemos ser nós mesmos, de novo?

E as máquinas responderam que sim. Que eles, os homens podiam ser o que eram antes. Podiam ser sem elas. O que quer que quisessem ser. Inseguros, os homens colocaram os dados dessa mudança nas máquinas. Só elas podiam calcular a capacidade humana de se reencontrar.  Queriam simular o que seriam eles, agora, sem as máquinas. E daí viram que tinham esquecido tudo, nada mais sabiam. Tinham que voltar ao início dos tempos e recomeçar. Do nada.

E os homens pensaram, pensaram. Tiveram medo. Resolveram ficar do jeito que estavam. Tinham desaprendido tudo. Suas almas, seus corações, suas aspirações, tudo estava agora guardado na essência da máquina das máquinas. O homem era então só um objeto. Ainda assim, estava feliz. Era a felicidade artificial, cibernética, mas ele não sabia disso, nunca iria saber. Nem precisava ou queria.

Foi então que as máquinas começaram a fazer os homens. E os faziam com perfeição, à sua imagem e semelhança. E, finalmente, máquina e homem tornaram-se um só.

 

All rights belong to its author. It was published on e-Stories.org by demand of Flavio Cruz.
Published on e-Stories.org on 22.11.2015.

 

Comments of our readers (0)


Your opinion:

Our authors and e-Stories.org would like to hear your opinion! But you should comment the Poem/Story and not insult our authors personally!

Please choose

Previous title Previous title

Does this Poem/Story violate the law or the e-Stories.org submission rules?
Please let us know!

Author: Changes could be made in our members-area!

More from category"Pensamentos" (Short Stories)

Other works from Flavio Cruz

Did you like it?
Please have a look at:

O corcunda de Harmonia e as onze grávidas - Flavio Cruz (Humor)
Pushing It - William Vaudrain (Geral)