Flavio Cruz

Um mundo sem espaço, sem tempo

Éramos três. Ousados, sonhadores, sem medo. Tínhamos ouvido várias vezes histórias sobre a “cidade escondida”. Um lugar deserto, longínquo, a uns 9 quilômetros do centro de nossa pequena vila. A não ser pela descrição do local - quase sem vegetação, pedras grandes espalhadas por uma área de uns 500 metros, os relatos eram antagônicos, não faziam sentido. Alguns diziam que em determinado ponto dessa área, as pessoas eram repentinamente transportadas para uma cidade estranha, com pessoas estranhas também. Outros falavam que os visitantes desmaiavam e viam-se levados para um lugar imaginário. Havia um ponto certo, específico. Havia a possibilidade de se ficar o dia inteiro por ali e nada acontecer.

Não esperávamos nada de extraordinário. Fosse o que fosse, queríamos ver com nossos próprios olhos. De carro só podíamos ir até um certo trecho. Os últimos 2500 metros tinham de ser feitos a pé. Depois de um grupo de árvores esparsas, pudemos ver aquela grande clareira, quase árida. Embora não houvesse nada diferente à primeira vista, dava para a gente sentir algo especial no ar. Mas isso poderia ter inúmeras explicações racionais.

Começamos a andar pelo local, os três, bem juntos. Se algo acontecesse, não queríamos nos separar. Fomos para o lado direito. De vez em quando, pegávamos alguma pedra para jogá-la logo depois. Olhávamos para trás, para os lados. Tudo normal. Voltamos para o que seria mais ou menos o centro do local, paramos um pouco lá. Ficamos sentados por um tempo. Rimos um do outro. Um dizia que o outro estava com medo. Eu me ergui primeiro e fui avançando para o lado que ainda não havia sido explorado. Os dois me seguiram. Depois de andarmos uns dez metros, o Beto passou à minha frente. Eu e o Zeca nos apressamos para acompanhá-lo. Por um segundo eu me distraí e escutei um ruído seco vindo da direção do Beto, como se ele tivesse batido em uma parede de vidro. E, de repente, ele não estava mais lá. Corremos na mesma direção, mas foi por pouco tempo. Senti uma pancada na cabeça e desmaiei.

A sensação era de que tínhamos batido contra uma parede invisível. Estava deitado. Não estava em cima de nada, porém. Era como se estivesse no espaço e era tudo branco. Aos poucos um azul foi se formando sobre nós. Havia algumas nuvens, que foram aparecendo aos poucos. Embora não pudesse ver meus amigos, sabia que eles estavam lá, sobre a mesma relva que tinha acabado de se formar. Não sentia dor nem medo, mas não conseguia me mexer. De repente, alguém falou comigo. Parecia uma voz de adolescente. Daí percebi que dois rostos me olhavam de cima. Eram dois meninos, quase da mesma idade. Havia algo de estranho neles, pois não conseguia precisar suas idades. Mais estranho ainda, eles falavam comigo, mas a boca deles não mexia. Eu respondi e percebi que eu também não estava falando: estava apenas formando as frases na minha mente. Estávamos conversando por telepatia. Tentei descobrir algo sobre eles, observando suas roupas. O fato era que não dava para se dizer se elas eram antigas ou se eram do futuro. Nunca tinha visto nada igual. Eles falaram, então, que o “chefe” estava vindo. Sempre com a mente, sem mexer os lábios. Demorou pouco para aparecer um homem mais velho, embora também não tivesse mais de 30.

“Falou” que deveríamos ficar calmos pois tudo estava bem. Pensei comigo mesmo, “como vai ficar bem? “, vocês nem sequer falam com a boca! Como se estivesse respondendo à minha pergunta, seus lábios começaram a se mexer. Ainda havia algo de estranho, mas já era bem melhor.

Foi, então que ele explicou algumas coisas. Estou usando a palavra “explicar”, mas, na verdade, a explicação era mais estranha que a própria realidade. Disse que tudo que estávamos vendo, não existia. Ele tinha criado tudo aquilo para que pudéssemos nos situar, ou, de certa forma, nos sentir em casa. O “lugar” onde estávamos não era um lugar, não era um espaço. E mais ainda. Tinha usado a nossa própria imaginação, as nossas memórias, para recriar aquilo. Eles mesmos, as três pessoas que estávamos vendo, não existiam. Pelo menos não como seres. Eles eram, na verdade, uma coisa só, uma grande ‘inteligência”, por assim dizer. Tinham tomado o formato daquelas três criaturas para poderem se comunicar conosco. Também usaram uma mistura de tudo que havia em nossas cabeças para criá-las. Nesse momento eu quase senti o “interior” de meus amigos Beto e Zeca. Era como se eu estivesse dentro da cabeça deles e eles dentro da minha.

E então falou a mais absurda e todas as coisas que já tinha falado. Que ali não havia o “tempo”. Todas as vezes que alguém do nosso mundo vinha ali, a “intemporalidade” deles cessava e o tempo começa a contar. Aquilo era um distúrbio muito grande para eles e eles precisavam nos mandar embora o mais rápido possível. Tinha acontecido várias vezes. Para nos “mandar embora”, “eles” tinham de fazer um esforço muito grande, tinham de concentrar uma enorme quantidade de energia, uma energia diferente da nossa. Além disso, tentavam, como tinham feito antes, “apagar” de nossas memórias, tudo que tinha acontecido, para nosso próprio bem.

Embora eles desconhecessem absolutamente o nosso mundo, quando alguém aparecia de lá, eles podiam “sentir” exatamente como era, devido à inteligência inesgotável que eles tinham, uma espécie de “inteligência pura” conforme as próprias palavras que usava.

Por alguns momentos, então, eles desapareceram. Algum tempo depois, desapareceu também nosso céu artificial e, pouco depois, a relva. Houve, então, um “nada” que não sei explicar e que durou um tempo que não sei calcular.

De repente, estávamos os três de volta. Ficamos olhando assustados um para o outro. Conversando, percebemos que o Zeca não se lembrava de nada. O Beto se lembrava das coisas como eu. Fomos andando de volta para a cidade. E a noite chegou muito mais rapidamente do que pensávamos, pois tudo tinha acontecido de manhã. Ou assim pensávamos. Quando chegamos, todos estavam preocupados. Três dias haviam se passado.

Com o passar dos anos, o Beto se convenceu de que nada tinha acontecido e não queria falar sobre o assunto. Eu nunca me esqueci, embora nunca mais tenha voltado para aquele lugar. Queria entender o que tinha havido mas nunca obtive uma resposta. Aquele lugar era um “portal” acidental para uma outra dimensão? Uma falha na dimensão tempo-espaço? Havia ali uma emanação de energia ou radiação desconhecida que afetava nossos cérebros?

 Infelizmente nunca vou saber. Acho que não.

 

All rights belong to its author. It was published on e-Stories.org by demand of Flavio Cruz.
Published on e-Stories.org on 01.08.2015.

 

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