Flavio Cruz

São Paulo, meu amor


Tenho saudades da minha cidade. Eu sei que dizem que ela é violenta, perigosa. Falam tanto dela. Falam que todo mundo é apressado, que as pessoas não têm tempo para nada. Mentira. À noite as pessoas se reúnem, cantam e contam histórias. Quem quer, sempre tem um amigo e quem não quer, pode ficar sozinho. Não há prazo de adaptação, não há carência. Assim que você chega, você pertence. Todo mundo pertence. E há de tudo. Há pecados e lugares para se pecar. Há perdão para poder se pecar. É boa de se cantar, é boa para se poetar. Caetano falou que é o avesso do avesso do avesso...e daí eu paro no avesso que quiser, no avesso que melhor me servir. O Tom Zé canta que nos amamos com todo ódio e que nos odiamos com todo amor. E Billy Blanco diz que as portas de aço levantam, todos parecem correr, não correm de, correm para...Para onde, não sei? Sei sim, quero correr para lá. Ela tem de tudo, de todas formas, todo o tempo. Ela é adulta, ela é criança, ela é adolescente também. Às vezes ela adoece mas está sempre a se curar. Há Consolação, há Socorro, há Liberdade e até uma Casa Verde para não se perder a esperança. À noite, então, nem posso falar. Há gente nos teatros encenando cenas que saciam os cultos e há cinemas ocultos que saciam a vontade de sexo dos incultos. Há cultos sinceros mas há os vilões do templo também. Há cultos e pastores da noite de quem não quero falar. Há tantas coisas na cidade, em cada canto, em cada esquina. Há dor, muita dor, mas tanta alegria vem junto que às vezes nem sei qual é qual. E os sonhos, então?
Tantos sonhos...Tantos segredos, tantas histórias que todos sabem e ninguém quer contar. Há também contos de fada, milagres que acontecem, outros que se compram, alguns que se vendem. Há gente de todo lugar, há lugar para todos e em algum lugar sempre algo está para acontecer. Há segredos que não se podem contar. E há contos que não são mais segredos. E há lendas, lendas e mitos. Quase todos são verdade, mas ninguém precisa saber. Falam tantas coisas de você...Eu escuto todas e só presto atenção nas que quero. Sinto muito sua falta. Não há cidade igual.  Tenho muitas saudades de você, São Paulo, meu amor...

 

All rights belong to its author. It was published on e-Stories.org by demand of Flavio Cruz.
Published on e-Stories.org on 26.06.2015.

 

Comments of our readers (0)


Your opinion:

Our authors and e-Stories.org would like to hear your opinion! But you should comment the Poem/Story and not insult our authors personally!

Please choose

Previous title Previous title

Does this Poem/Story violate the law or the e-Stories.org submission rules?
Please let us know!

Author: Changes could be made in our members-area!

More from category"Vida" (Short Stories)

Other works from Flavio Cruz

Did you like it?
Please have a look at:

A maçã que não era da Apple (nem da Microsoft...) - Flavio Cruz (Ficção científica)
A Long, Dry Season - William Vaudrain (Vida)
A Long, Dry Season - William Vaudrain (Vida)