Flavio Cruz

Vizinhos americanos, uma boa vizinhança

O Sr. Williams gostava de morar ali. Viúvo e aposentado, já com uma certa idade, não queria saber de confusão, de barulho, de gente tocando a campainha. Seus vizinhos, então, eram perfeitos. O casal Carter não poderia ser melhor. O marido saía só de vez em quando, fazia alguma coisa na frente da casa e entrava de novo. Se visse o Williams, falava um “Hi”, um bom dia, uma boa tarde. A Sra. Williams, saía menos ainda. Como o marido, sempre sorria e cumprimentava. Eram, ao todo, três cabeças brancas, cumprindo a última etapa da vida, sem maiores compromissos. Não queriam aborrecimento de ninguém e não queriam aborrecer ninguém. Perfeito para o Sr. Williams: cada um cuidando da sua própria vida.
Houve uma época, porém, em que a Sra. Carter era pouco vista. Certamente não estava se sentindo bem e evitava sair. Umas duas vezes o Williams chegou a ver uma cabecinha branca de mulher entrando de volta na casa. Mas não poderia garantir se era ela. Estava um pouco diferente. Podia ser uma irmã, uma parenta. Talvez, um dia, pudesse perguntar ao Sr. Carter, mas tinha medo de incomodar. Por outro lado também temia que ele começasse a conversar muito e a coisa pudesse evoluir. Queria sossego e deixou um tempo passar.
Um dia, ao voltar de uma de suas andanças – precisava não enferrujar – viu que seu vizinho Carter estava descarregando uns móveis. Talvez estivesse cansado dos velhos. Foi tudo muito rápido e o caminhão partiu. Nos dias seguintes, o Sr. Carter continuou cumprimentando-o como sempre. Parecia, no entanto, mais jovial, mais alegre. Talvez agora fosse uma época boa para perguntar sobre a Sra. Carter. De passagem, é claro, sem prolongar o diálogo. Ele e seu vizinho tinham mais o que fazer. Talvez pudesse aproveitar e perguntar quais eram seus primeiros nomes. Afinal de contas moravam perto há anos e só sabia seu sobrenome.
Não precisou. Num dia bonito de sol, enquanto preparava-se para sua caminhada matinal, o sr. Williams ouviu a campainha tocar. Que ousadia, quem se atrevia a atrapalhar a sua rotina? Abriu a porta com cara de poucos amigos e lá estava o sorridente Carter com um envelope na mão. O carteiro, por engano, havia deixado a correspondência em sua casa e ele estava devolvendo. Muito obrigado. O senhor é muito gentil. Sempre estou para perguntar, qual é mesmo seu primeiro nome? Jeff? Assim foi a conversa. Tinha de ser prático, eficiente e, principalmente, rápido. Afinal depois de tantos anos...
Foi aí que o Carter retrucou que não, só estava ali há algumas semanas. Seu irmão gêmeo, o outro Carter, havia falecido, ele não sabia? Ele não era o Carter que ele pensava. Como poderia, eles eram idênticos! A casa estava vazia e ele morava lá para o Norte – um frio desgraçado – resolvera se mudar e ocupar a casa fraterna. Antes que ele perguntasse, o Carter irmão explicou que a sra. Carter – cunhada - havia falecido também, há uns três anos, e foi uma questão de tempo, o marido também ir para outro lado. Não é assim que sempre acontece, homem viúvo não dura muito tempo?
Foi um vexame não saber o que estava acontecendo com os vizinhos nos últimos três anos. Mas o Sr. Williams não ficou envergonhado. A Sra. Carter morreu, o Sr. Carter mudou para o outro lado da existência também, e o irmão Carter, outro Carter, mudou-se para um lugar mais quente. Foi isso que aconteceu, como ele poderia adivinhar? Que lugar agitado, quem aguenta um movimento desses? Tudo isso acontecendo ali, bem ao lado, e o Sr. Williams não sabia de nada. Para ele, sempre estiveram ali o Sr. e a Sra. Carter, sorridentes, cabelos alvos, bom dia, boa tarde, vou bem, obrigado.
Ainda bem que o Sr. Williams não percebeu. Se tivesse, a rotina dos seus últimos três anos estaria completamente arruinada. Vizinhança boa, essa, não é o que o Sr. Williams sempre fala?

 

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Published on e-Stories.org on 12.03.2015.

 

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