Flavio Cruz

O Perfeito Companheiro

Marlin estava sentada na varanda de seu apartamento. Morava naqueles conjuntos residenciais que eram autossuficientes e que tinham um custo muito baixo para funcionários do sistema. Não havia mais governo da forma como entendíamos no passado. As grandes corporações dividiam entre si o poder. Na verdade havia pouco de político no sistema administrativo. O avanço da ciência havia sepultado para sempre uma série de ideias, preconceitos, maneiras de agir. Como sempre, havia o lado positivo e o negativo. Havia poucas preocupações sociais. Os maiores conflitos estavam concentrados nas próprias pessoas, muitas vezes envoltas em um tédio terrível gerado pelo próprio fato de que tudo era previsível, tudo já tinha sido resolvido anteriormente. Faltava um pouco de incerteza, um pouco de “perigo” para os humanos, algo que aguçasse os sentidos.
Como se podia deduzir por Marlin, o próprio aspecto dos seres humanos estava bastante diferente. As pessoas eram magras, altas, sustentadas por músculos rígidos porém não volumosos. As cabeças eram completamente sem cabelos e quase todos usavam túnicas não muito diferentes umas das outras.
-Então, Ray, como foi seu dia?
- Um pouco monótono. A única coisa interessante foram as notícias sobre o acelerador de partículas que estão inaugurando na próxima semana em Marte.
- Ouvi falar. É algo inédito pelo seu tamanho...Parece, no entanto, que não estão falando tudo que deveriam falar sobre o projeto.
-Dizem que a companhia que cuida desse projeto não é muito de marketing e é cheia de segredos.
-Devem ter seus motivos.
O inglês que falavam, agora praticamente a única língua existente, era bastante diferente do inglês falado no sec. 21. Era como se ela tivesse engolido as outras línguas mais conhecidas, triturado suas palavras, aproveitado a essência do que era assimilável e revestido tudo com um toque americano.  Qualquer pessoa que conhecesse uma língua antiga, principalmente uma das línguas latinas, poderia sentir que havia um pouco do espírito da sua própria língua ali, sem saber dizer o que exatamente.
-Claro, eles não fazem nada sem motivos. De qualquer forma, no momento, o que mais se comenta é sobre os restaurantes estilo século 20 que estão proliferando pela cidade.
-Ouvi comentários a respeito. Um deles tem imagens holográficas quase perfeitas de pessoas da época. É como se eles estivessem andando pelo ambiente.
-Mais do que isso. Emitem aromas da época. Conseguiram até trazer o cheiro da rua da época para dentro. Um deles tem até um pedinte que olha pela janela estendendo um boné.
-Isto é de mau gosto...
-Acaba se integrando na paisagem. As pessoas se divertem. Você sabe como é difícil divertir as pessoas hoje em dia.
-Como sei...
Falaram, falaram...era bom. Numa época que pareciam esgotadas todas as formas de entretenimento, onde tudo parecia ter sido já inventado, todos os temas já abordados e todas as histórias já contadas, era bom ter alguém que conseguisse conversar por mais de uma hora.
Marlin pensou consigo mesmo como Ray era um bom companheiro. Tem sido maravilhoso desde o primeiro dia em que ele entrou naquela casa. Calou-se um pouco. Depois levantou-se, falou um “boa noite” bem terno para Ray, que respondeu sorrindo, e foi se deitar. As luzes suaves da varanda se apagaram automaticamente. Ray, então, abaixou a cabeça, encostou o queixo sobre o peito e ficou silencioso e imóvel como um boneco, ali mesmo na poltrona onde estivera o tempo todo.
Você jamais saberia quem era Ray se não pudesse olhar, com uma lente, atrás de sua nuca, umas minúsculas inscrições. Lá dizia o ano de fabricação, o nome do fabricante e outros dados técnicos. Era um robô de companhia. Perfeito. Ray era o melhor e único amigo de Marlin.

 

 

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Published on e-Stories.org on 11.03.2015.

 

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