Flavio Cruz

O dia da Jacinta

O dia da Jacinta

A Jacinta é demais. Dá o sorriso certo na hora certa, na medida certa. Não há nada que o cliente peça que ela fale que não dá para fazer. Rápida, eficiente, chega na hora certa e não tem hora para sair. O gerente do restaurante e as pessoas que o frequentam não poderiam querer mais. Se o local era de luxo, ficava ainda mais luxuoso por causa dela.

E não é que naquele dia, uma tremenda sexta feira à noite, ela chega com um sorriso estranho, diferente de todos os sorrisos anteriores. Não que fosse mau, mas que era diferente, isso sim, era, e muito. Malicioso, malandro sem maldade, safado no bom sentido? Sei lá, não dá para definir. Mas sorriso é sorriso, é subjetivo, pode ser apenas uma impressão. Havia algo mais. Era a atitude. Dava tapinhas nas costas das pessoas assim que colocava os pratos na mesa. Sussurrava em seus ouvidos algo que não dava para entender. E o pior de tudo: vez ou outra pegava um pedacinho dos pratos para experimentar, bem na frente do freguês. E fazia sinal de positivo, como quem dissesse “está uma delícia!” Ainda assim, afinal era a Jacinta, fazia tudo com muita graça. Os garçons, um olhava para outro, davam um sorriso sem graça, mas não falavam nada. O gerente estava paralisado, não sabia o que fazer.

O óbvio é o óbvio. Jacinta estava bêbada. Nenhuma tragédia irrecuperável tinha acontecido ainda e o chefe resolveu “segurar as pontas”. Talvez fosse o caso de recolher a Jacinta, para seu próprio bem, mas quem tinha coragem de fazer aquilo com tão perfeita funcionária?

E foi assim a noite inteira. No fim todos acabaram se acostumando e ficaram aliviados pois não tinha sido o final do mundo.

Depois da sexta, sabemos, vem o sábado. E com o sábado, todo mundo curioso. Como estaria a Jacinta? Daria para aguentar outro dia desses? Nunca tinha acontecido antes, mas nunca se sabe, depois que acontece uma vez...

Com sempre, na hora certa, lá está Jacinta. Firme, segura, sorridente. Sorriso certo, sorriso bom. Segura, solícita, profissional. Perfeita.

A sexta tinha sido um dia excepcional na vida da Jacinta, uma exceção. Nunca mais aconteceu, nunca mais vai acontecer. Afinal, ela tinha direito a um dia assim, o dia da Jacinta.

 

All rights belong to its author. It was published on e-Stories.org by demand of Flavio Cruz.
Published on e-Stories.org on 14.05.2018.

 

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